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15/08/2012

A mulher roubada e os outros


O grito "fui roubada!" ecoou no banco e assustou todo mundo, inclusive o guarda, que pegou no cabo do revólver disposto a enfrentar o bandido. A mulher, branca feito uma lã de algodão, gritava histérica, espiando a máquina, vendo diante dela o pior dos ladrões. O banco estava cheio e ficou mais cheio ainda com o amontoado de gente ao redor da mulher, mais curiosidade do que solidariedade estufando os peitos.
A mocinha vestida de verde veio correndo, a colega também veio, até o gerente saiu de sua mesa para ajudar. A mulher só via a máquina, a ladra de seus dinheiros. Só parou de gritar quando a mocinha vestida de verde, após averiguar a denúncia, revelou que não havia roubo, mas diminuição de verbas por ordens lá de cima. "A senhora perdeu a gratificação, o DAS. Vá reclamar no Centro Administrativo", sugeriu a mocinha. A mulher passou do espanto ao choro: -Mas como... é o dinheiro do colégio da menina. Ôxente, e eu não votei no homem?"
Houve um momento de solidariedade à pobre mulher, que só foi desmanchado pelo grito colérico do bigodão, metido a polícia, que da outra máquina esbravejou com força:-Bixiga lixa, o meu saiu zerado!" Aí generalizou a coisa, de todas as máquinas saíam nomes feios, pragas, choros e mágoas. Quem não zerou, teve o dinheiro cortado pela metade, faltando um quarto, aquele extra que permitia um descanso à patroa no fim de semana, um passeio com as crianças ao restaurante da Bica, um naco de carne mole ou a galinha matriz do domingo.
De todos, só Rafa permanecia tranquilo e sem baixar o nível, pois estava certo da imutabilidade do seu dinheiro. Era "assim-assim" com o homem e ninguém se abestasse em bolir no seu que receberia troco. Via o desespero como se visse algo distante, que não lhe tocava o coração. Tinha absoluta certeza de que os cortes eram necessários para diminuir gorduras, como lhe dissera o doutor no final de semana, quando na sua casa estivera consertando a torneira do banheiro. Estava tão tranquilo que caminhou ao saque que ia fazer assobiando uma canção de Roberto Carlos. Enfiou o cartão, digitou a senha, informou a contra-senha e puxou o saldo só para conferir, sabendo que não precisaria daquela informação porque o seu estava intacto, inteirinho, imutável. Veio o papelzinho amarelo, Rafa puxou e deu o choro, lembrando do carteado da Padre Zé que preenchia suas bocas de noite. A chapa quase caiu da boca. Ali no papelzinho estava escrito uma informação inesperada. Do seu os homis haviam tirado os 150 do motel.

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