Já estou vendo a cena. A classe política paraibana gastando energia em mais uma pendenga inútil ao discutir se o Centro de Convenções deve ou não se chamar Poeta Ronaldo Cunha Lima ou Governador Tarcísio Burity, conforme reivindicou viúva do ex-governador.Triste Paraíba. Onde, tomando de assalto criativo título da mais recente obra do professor Hildeberto Barbosa Filho, “nem morrer é remédio”.
Ora, nenhuma homenagem a político é unanimidade. Claro que não. A política pressupõe divergências, confrontos, inimizades, rachas, brigas. O que sugere, mesmo depois de morto, a permanência de inimigos na terra.
Não se pode querer com a homenagem ao poeta Ronaldo dizer que vai se agradar a família de Burity ou a Paraíba inteira. O político, por maior que seja, não deixou na terra só amigos e admiradores. As homenagens não são dadas por unanimidade, mas, no mínimo, pela consciência da representatividade da figura homenageada.
A história está cheia de homenagens não unânimes. Monumentos homenageando ACM na Bahia, Miguel Arraes em Pernambuco ou Carlos Lacerda no Rio de Janeiro, por exemplo, geraram sempre uma pontinha de ódio e indignação no coração de suas “vítimas" ou adversários históricos.
Na Paraíba, o caso clássico do nome da capital não agradar aos familiares dos adversários de João Pessoa revela que homenagear políticos é um ato, por si só, pouco afeito à unanimidade.
Dessa forma, colocar o nome do poeta Ronaldo no Centro de Convenções não significa dizer que a família Burity vá soltar fogos e brindar pela homenagem. Mas a família de Burity também não pode impor desgostos, por mais razões que tenha de tê-los.
Não pode significar causa de disputa. Tanto Ronaldo como Burity merecem nominar qualquer obra na Paraíba. Grandes e representativos nomes, independentemente das questões políticas e pessoais de preferência.
Ronaldo pode emprestar o nome ao Centro de Convenções e Burity ao novo hospital metropolitano de João Pessoa, por exemplo. Ou o contrário. Isso não importa. O que não se pode fazer disso é tema de debate da classe política paraibana, que já perde muito tempo com picuinhas sem retorno.
Os mortos não merecem isso. Tiveram suas vidas, praticaram seus atos. Certamente querem, com suas lembranças, permitir a evolução de seus conterrâneos. E não o retrocesso a mais uma briga improfícua.
Já chega de homenagear o atraso.
Luís Tôrres
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